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Pavimentação da BR-319 quadruplicará desmatamento no Amazonas, aponta UFMG

Pesquisa destaca que desmatamento acontecerá inevitavelmente, mesmo se tratando de áreas de domínio público, como terras não destinadas, ou áreas protegidas já estabelecidas

REDAÇÃO TODA HORA

Publicado em 9 de novembro - 06:00

Estrada continua sem ter o trecho do meio asfaltado

Foto: EBC

Projeção realizada pela UFMG também aponta perda de mais de 350 milhões dólares anuais para o agronegócio e prejuízos ambientais.Um estudo inédito sobre o possível impacto ambiental provocado pela pavimentação da rodovia BR-319 mostra que o desmatamento acumulado no estado do Amazonas pode aumentar quatro vezes até 2050. Também estima prejuízos econômicos da ordem de 350 milhões de dólares anuais para o agronegócio, com a perda de serviços ambientais. E mais: seria praticamente impossível que o Brasil cumprisse acordos climáticos internacionais, por causa do aumento de emissões de gases de efeito estufa.

A série Amazônia Sufocada, do InfoAmazonia, mostrou na última reportagem sobre as queimadas no estado que os 12 municípios amazonenses sob influência direta da BR-319 somam mais de 40% dos focos de calor registrados em 2020 no Amazonas. A área é um dos pontos de expansão de grilagem de terras na Amazônia brasileira.

O estudo do Laboratório de Gestão de Serviços Ambientais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) projeta dois cenários para o período (2017 a 2050), um sem e outro com obras na rodovia.

O primeiro cenário, sem a pavimentação, mantém a média anual de desmatamento dos últimos cinco anos, que é de 1.150 km², segundo dados do Prodes/Inpe. No segundo, com a pavimentação, a rodovia estimularia fluxos migratórios, a expansão de atividades agrícolas e a ocupação de terras, o que elevaria as taxas de desmatamento chegando a 9,4 mil km² anuais em 2050. O desmatamento acumulado no Amazonas de 2017 a 2050 passaria então de 40 mil km² no primeiro cenário, para 170 mil km² no segundo – quatro vezes mais com a pavimentação.

Nesse cenário, as emissões acumuladas de dióxido de carbono (CO₂) mais que quadruplicariam, alcançando 8 bilhões de toneladas em 2050, o equivalente à emissão de 22 anos de desmatamento em toda a Amazônia considerando a taxa de desmatamento do bioma em 2019.

Segundo o líder do grupo de pesquisa, professor Raoni Rajão, a repavimentação da BR-319 vai elevar o valor das terras na região da rodovia. Ele destaca que isso acontecerá inevitavelmente, mesmo se tratando de áreas de domínio público, como terras não destinadas, ou áreas protegidas já estabelecidas.

“O que vai acontecer é uma grande corrida do ouro naquela área, por assim dizer, de empreendedores ilegais, com interesses de expandir a pecuária, de tomar terras e até de ocupar unidades de conservação. Essas pessoas vão fazer isso de maneira mais acelerada com a pavimentação”, destaca Rajão.

O temor dos pesquisadores da UFMG tem precedentes: a BR-163, conhecida como rodovia Santarém (PA) a Cuiabá (MT). A estrada foi criada no mesmo período que a BR-319 do Amazonas e, hoje, é o centro de diversos conflitos e crimes ambientais na Amazônia. A Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim é uma das mais pressionadas do Brasil e o local foi cenário do chamado Dia do Fogo em 2019.

“As imagens de satélite mostram claramente que grande parte do desmatamento ali na região da Flona do Jamanxim, em Novo Progresso, aconteceu após a definição da unidade de conservação e não antes”, destaca Rajão.

Para Raoni, a presença de colonos desde o período anterior à criação da área de proteção pode ser usada como justificativa para o desmatamento dos locais. “Nós tememos que, com a pavimentação da BR-319, as unidades conservação que foram criadas naquela área como o Parque Estadual de Matupiri, o Parque Nacional Nascentes do Lago Jari, entre outros percam de fato a sua capacidade de evitar o desmatamento”, alerta o pesquisador.

Organizações ambientais também temem que, com as obras, a pressão aumente sobre as 69 terras indígenas e 42 unidades de conservação da região, que é um dos últimos refúgios de biodiversidade intocada do bioma.