Quarta-feira - Manaus - 18 de setembro de 2019 - 23:03

BRASIL

PF suspeita que conselheiro do Tribunal de Contas seja mentor da morte de Marielle

Investigação da PF contém análise de bases eleitorais e votações, e mensagens de preso pela morte de Marielle que insinuam que ele foi usado para tirar as atenções do manda

REDAÇÃO TODA HORA

Publicado em 10 de setembro - 12:30

A vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e seu motorista Anderson Gomes foram assassinados em março de 2018

Foto: Divulgação

O conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, Domingos Inácio Brazão, está na mira da Polícia Federal, sob suspeita de ter sido o principal “mentor intelectual” do assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, que foram alvejados dentro de um carro, em 2018.

Segundo informações de O Globo, o relatório da investigação sobre obstrução de Justiça no caso Marielle tem 600 páginas, mas ainda é inconclusivo. Carece de provas robustas, por exemplo, a narrativa de que Brazão mandou matar Marielle porque sua família disputaria com ela o voto de eleitores em algumas regiões do Rio.

O delegado Almada, que cuida desse inquérito, afirmou textualmente que “Domingos Inácio Brazão é, efetivamente, por outros dados e informações que dispomos, o principal suspeito de ser o autor intelectual dos crimes contra Marielle e Anderson, o que deve ser objeto de criteriosa investigação por quem de direito.”

Até agora, o principal suspeito de executar Marielle era o sargento da PM e miliciano Rodrigo Jorge Ferreira, mas a investigação por obstrução de Justiça aponta que ele foi levado à prisão e acusado do crime por um delegado (Hélio Khristian) supostamente ligado a Brazão.

Preso, o miliciano disse à polícia que havia interesse do vereador Marcello Siciliano (PHS-RJ) no assassinato da vereadora por conta de uma possível guerra política entre os dois.

Mas a PF constatou a inexistência de tal disputa. “Ao analisarem o mapa eleitoral das localidades onde ambos tinham mais votos, eles perceberam que os dois políticos concorriam, em diferentes pontos, com a família Brazão”, escreveu O Globo desta segunda (9).

Marielle disputaria votos com Chiquinho Brazão, irmão mais velho do conselheiro do TCE Domingos. O relatório aponta, contudo, que Chiquinho tinha três vezes mais votos que a vereadora em algumas regiões.

“(…) essa disputa é a principal informação que leva Brazão para o caso Marielle, além de uma ligação, não comprovada, entre o delegado da PF Hélio Khristian – que levou Ferreira para na Delegacia de Homicídios da Capital (DH) – e o conselheiro afastado.”

Mensagens

Uma das evidências colhidas pela PF, com autorização judicial, é a troca de mensagens no WhatsApp entre o miliciano Rodrigo Ferreira e sua advogada, Camila Moreira. Na conversa, Rodrigo diz que ele e Camila “foram usados”. A advogada concorda: “Isso foi para desviar a atenção de quem era “o mandante?” (grifo da PF). E complementa: “Ele soube que havia mandado desde o começo. E o Brazão tá nessa (sic).”

A investigação da PF menciona que Brazão iniciou suas atividades empresariais em ferros-velhos, atuando na receptação de carros roubados. Ele teria ligações com Rio da Pedras, a base operacional do Escritório do Crime, uma organização criminosa criada para matar por encomenda.

O Escritório do Crime é comandado pelo ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Adriano Magalhães da Nóbrega, cuja mãe, Raimunda Véras Magalhães, e a esposa, Danielle Mendonça da Nóbrega, trabalharam no gabinete do senador Flávio Bolsonaro até 2018.

Elas foram demitidas em dezembro, quando a mídia revelou o escândalo do caso envolvendo o ex-assessor Fabrício Queiroz, que seria o elo de Flávio com a família do miliciano.

Queiroz foi pego pelo Coaf movimentando quantias milionárias, sem ter renda nem patrimônio compatíveis. Primeiro, ele disse que o dinheiro era fruto de negócios envolvendo compra e venda de carros. Depois, admitiu que recolhia parte do salário dos funcionários do gabinete de Flávio.