Sexta-feira - Manaus - 14 de agosto de 2020 - 07:58

MANAUS-AM

CV quer dominar tráfico de drogas no Amazonas e exterminar FDN

Facção criada por ‘Zé Roberto da Compensa’ vem perdendo território do tráfico para o Comando Vermelho, que teve origem no Rio de Janeiro, mas está cada vez mais forte no Amazonas. Foguetório em Manaus simbolizou a mudança no comando do tráfico, mas esta guerra está longe de acabar.

CARLA ALBUQUERQUE

Publicado em 11 de fevereiro - 13:25

Arte: Victor Costa

A guerra sangrenta entre as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Família do Norte (FDN) teve novo capítulo na noite de segunda-feira, 11/02. Manaus foi tomada por foguetório, que começou ainda à tarde e durou a noite inteira. A ‘comemoração’ aconteceu depois que o CV conseguiu tomar territórios do grupo rival. Uma disputa que está longe de terminar e vem provocando muitas mortes na capital do Amazonas.

Mas essa briga não começou agora. Se arrasta desde janeiro de 2017, com o massacre no sistema prisional. No início deste ano, essa disputa pelo poderio, que atualmente, está, em grande parte, nas mãos do CV, se intensificou ainda mais, e já resulta na morte de 152 pessoas.

Consta no relatório da operação La Muralla, da Polícia Federal (PF) de 2015, que a FDN foi criada por José Roberto Fernandes Barbosa, o ‘Zé Roberto’, Gelson Lima Carnaúba e João Pinto Carioca, o ‘João Branco’. Desde a criação, ambos caminhavam lado a lado com os criminosos do CV, trazida para Manaus por Carnaúba.

Após a prisão das lideranças, durante essa operação, e a transferência deles para unidades federais, se instalou uma disputa interna. Essa briga e racha entre Carnaúba com Zé Roberto e João Branco, foi identificada em janeiro de 2017. À época, 56 internos entre integrantes do CV e não faccionados foram mortos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj).

Depois do segundo massacre, em maio de 2019, com mais 55 mortes em quatro presídios de Manaus, resultado de uma nova briga, mas desta vez entre Zé Roberto e João Branco, o Comando Vermelho passou a ficar cada vez mais forte. Esse fortalecimento ocorreu com auxilio dos traficantes e homicidas Kaio Wuellington Cardoso dos Santos, o ‘Mano Kaio’, e Alexsandro Oliveira dos Santos, o ‘Sandrinho’.

Mano Kaio e Sandrinho são foragidos do Centro de Detenção Provisória Masculino 2 (CDPM) desde maio de 2018. Eles fugiram com outros 32 criminosos, todos ligados ao CV. O relatório sobre a fuga nunca foi apresentado pela Secretaria de Administração Penitenciária (Seap). 

Perda de território

Desde a criação, a FDN sempre manteve no domínio do tráfico de drogas no Amazonas, mas na noite desta segunda-feira, 10/2, o Comando Vermelho protagonizou uma queima de fogos em todas as zonas de Manaus para mostrar que o domínio do tráfico mudou de lado e agora está nas mãos da facção criminosa oriunda do Rio de Janeiro. 

Em resposta, faccionados aliados a FDN, gravaram um vídeo afirmando que a guerra ainda vai continuar. Para tentar controlar essa disputa, o Governo do Estado, anunciou, ainda na noite de segunda-feira, após a queima de fogos, um Gabinete de crise. 

Sistema Prisional ameaçado

Como medida de segurança, desde o último domingo, 9/2, a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) suspendeu a visita em quatro unidades prisionais. Os presídios são os mesmos onde foram registradas mortes em maio do ano passado, Unidade Prisional do Puraquequara (UPP), Centro de Detenção Provisória Masculino 1 (CDPM), Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) e Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat). 

Na noite desta segunda-feira, após a intensa queima de fogos, um detento foi estrangulado e morto dentro do Compaj. A Seap descartou, à princípio, que a morte esteja ligada a briga entre facções, mas três detentos suspeitos pela morte foram identificados e encaminhados para a delegacia.   

Mortes sem limites 

De acordo com dados do Portal da Transparência da Secretaria de Estado de Segurança Pública, de janeiro de 2017, ao último dia 10, um total de 2.843 pessoas foram mortas em Manaus. De acordo com a SSP, 90% dessas mortes foram praticadas em decorrência do tráfico de drogas.

Desde novembro do ano passado, as forças de segurança registraram uma disputa ainda mais sangrenta. A guerra entre as facções se tornou ainda mais violenta nesses primeiros 41 dias de 2020, e já resulta na morte de 152 pessoas. De acordo com o delegado Paulo Martins, da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS) 100% dessas mortes são resultado desse conflito.