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MANAUS-AM

Comunidade São Francisco do Caramuri entre os três maiores produtores de abacaxi

Atualmente, 15 famílias da comunidade são as responsáveis pela produção direta do abacaxi que abastece mercados e feiras de Manaus e região metropolitana, e ainda do estado de Roraima.

REDAÇÃO TODA HORA

Publicado em 17 de setembro - 14:40

Foto: Arlesson Sicsú

Áquila Sicsú

Cultivar com qualidade, agregar valores ao produto e produzir mais, buscando um maior aproveitamento das propriedades e dos talentos dos moradores com o agronegócio, foram as alternativas encontradas pela comunidade São Francisco do Caramuri, localizada na região do baixo Rio Preto, na divisa entre os municípios de Rio Preto da Eva, Itacoatiara e Manaus, para ficar entre os três maiores produtores de abacaxi da variedade Turiaçu, no estado do Amazonas.

Com uma produção que deve chegar a um milhão de frutas colhidas em 2020, em decorrência do manejo sustentável e tecnológico da plantação, 15 famílias da comunidade atualmente são as responsáveis pela produção direta do abacaxi que abastece mercados e feiras de Manaus e região metropolitana, e ainda do estado de Roraima.

No entanto, conforme o presidente da Associação Comunitária Agrícola São Francisco do Caramuri (ACASFC), Daniel Leandro da Silva, que assumiu a função em 2012, nem sempre foi assim. Após um período de quase extinção da produção do abacaxi e de famílias que foram embora da comunidade, foi necessário rever métodos e fazer investimentos no cultivo e principalmente na valorização do produtor.

“Um primeiro passo foi sairmos da monocultura para a policultura agregando a isso estratégias do agronegócio. Hoje, além da produção agrícola, com o abacaxi, temos o cupuaçu e a roça, nos temos a pecuária, com a produção de leite, queijo, manteiga e nata artesanal, temos a avicultura e o extrativismo, com o tucumã e a pesca artesanal, que fica em quarta posição na geração de renda na comunidade. Mostramos as famílias daqui que é possível produzir mais, desde que nos mantenhamos organizados, unidos por todos”, destacou Daniel, que é filho do primeiro produtor de Abacaxi na Comunidade de São Francisco.

Para o agricultor, José Nobre da Silva, 50, que vive a 22 anos na comunidade e da produção de abacaxi, — com esposa e três filhos — a diferença do início da produção do abacaxi, com a atual vivida pela comunidade, é de 100%. “Antes tudo era muito braçal, difícil, sofrido mesmo. Quando conseguíamos uma produção boa, tínhamos dificuldade para nos locomovermos de uma plantação a outra, de transportar essa produção dentro da nossa própria terra e depois de escoar as frutas para venda. Tudo era muito difícil. Hoje a vida é mais tranqüila, conseguimos viver do que plantamos”, afirmou José, que cultiva atualmente de 35 a 40 mil pés de abacaxi.


Foto: Arlesson Sicsú

De acordo com Daniel Leandro da Silva somente após a inclusão da associação da comunidade em programas de incentivo do governo Federal, do Governo Estadual e de doações privadas foi possível melhor a vida dos produtores e ampliar a estrutura do cultivo do abacaxi.

 “Em 2012, conseguimos a adesão do ‘Luz para todos’; em 2013 a recuperação total do ramal; em 2015 uma balsa com capacidade de 80 toneladas para transportar a produção. Todas essas conquistas colaboraram para melhorar a vida das 60 famílias da nossa comunidade e a nossa produção”, explicou ao acrescentar ainda a aquisição de 17 triciclos que ajudam na escoação da produção.

Subprodutos

Outra medida encontra pela Associação Comunitária Agrícola São Francisco do Caramuri foi investir na qualificação dos produtores para o desenvolvimento de subprodutos derivados do abacaxi. A partir desta visão, foi criado pelas mulheres da comunidade o Grupo de Mulheres Empreendedoras de São Francisco (GRUMESFC), que com a ajuda de cursos do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae- AM), produz licor de abacaxi, trufas e biscoitos.

Um dessas empreendedoras da comunidade de 2018 é Luzenilda Sotero da Silva, 41, que chega a fabricar por mês cem garrafas de licor de abacaxi. “Consigo vender meu produto em Manaus, na Vila do Engenho e em Novo Remanso. É uma renda extra que ajuda a complementar nas despesas de casa. Comecei a produzir depois que fiz o curso com o Sebrae, que nos ensinou todo processo de preparação da bebida até a esterilização dos recipientes”, disse.  

Foto: Arlesson Sicsú

Também beneficiada com a capacitação é a dona de casa, Joelma dos Santos Braga, 28, que produz cem trufas por dia e tem um faturamento de R$ 700 mensal. “Hoje consigo comprar uma roupa, um calçado para mim e para meus filhos. Sem falar que me sinto bem, fazendo meus produtos e ganhando meu dinheiro”, concluiu.

Parcerias

Com a profissionalização do cultivo, a comunidade também estabeleceu parcerias importantes para o crescimento da produção, até então considera familiar, como o Programa de Regionalização da Merenda Escolar (Preme) implementado pelo Governo do Amazonas, da qual a associação faz parte desde 2014. Só neste ano, mesmo com a pandemia do Coronavírus que paralisou as escolas, o Preme foi o responsável pelo consumo de 350 mil quilos da fruta.  

Outras parcerias que trouxe benefícios para as famílias de São Francisco de Caramuri foram com uma organização não governamental suíça e com o Consulado Japonês no Amazonas que doaram poços artesianos. O que melhorou a qualidade de vida dos moradores da comunidade.

Sobre o abacaxi

Segundo a pesquisadora da Agência de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas, engenheira Agrônoma, Silvia Christina Abreu, o abacaxi da variedade Turiaçu, originário do estado do Maranhão, se difere das demais variedades por aspectos que agradam mais o paladar do consumidor em comparação a outros abacaxis como o da variedade Pérola, por exemplo. Entre elas, destacam-se a polpa amarela e a baixa acidez do Turiaçu, que passa a sensação ao paladar da fruta ser mais adocicada.

Foto: Arlesson Sicsú

Já para o produtor, os maiores benefícios são a grande produção de mudas e uma produção sem fator limitante. Ou seja, abacaxi o ano inteiro. “O que nos diferencia da produção de abacaxi de outros estados do Sul e Sudeste é que lá a produção é por safra. Já no Amazonas com o Turiaçu se produz o ano inteiro, com escalonamento da produção”, esclareceu.

Sobre as dificuldades do produtor amazonense em exportar a fruta para outros países, se deve ao fato da ausência de infraestrutura qualificada. “Hoje apesar da grande procura de países europeus e asiáticos pelo abacaxi produzido aqui, não ainda não temos condições estruturas de exportar essa fruta. Outra situação é o fato do abacaxi, por ter uma acidez mais baixa, sofre um processo de maturação mais rápida também, o que causa um escurecimento interno na fruta que só pode ser visualizado quando a cortamos. O que dificultariam no transporte em longas distâncias”, finalizou.

Para o ano de 2021, a comunidade São Francisco do Caramuri estima uma produção de dois milhões de abacaxi. E trabalha com uma projeção para daqui a cinco anos produzir dez milhões de frutos.